E no meio da praça… um artista pôs um balanço, um balanço… foi posto pelo artista no meio da praça… o balanço mudou o dia; e o balanço mesmo se modificou… e balançou para frente e para trás a dor… a dor então esvaneceu-se por um instante… solto no alto, o ar adocicou pelo vento batendo na face, apaziguando a dor e o balanço já não era agora só balanço… tornou-se “balançadores.”
Balançadores… metros de corda, pedaços de pau, cobertos de tinta e palavras, palavra e poesia escrita por Manuel Bandeira que de outrora se atualiza no agora, poesia de amor e rima…. a rima que fala… e fala de dor… no centro pulsando e as pessoas passando, todas elas, fora delas, todas elas esquecidas. O rosto é tão estranho, de um, de outro, de todos na curiosidade de olhar para aquele balanço. A brincadeira de infante dada como presente ao adulto maltratado, pelos dias de tantos anos balançou… e balançou… foi lá no alto, esquecendo nem que brevemente sua dor… por que essa sempre volta para o presente como o peso do corpo por sobre o pé que pisa o chão.
E assim para frente e para trás o homem quis ser menino novamente, a mulher que sofre, àquela que é de todos e de nenhum, dos que passam esquecidos, pública e invadida na vida difícil sorriu… sorriu na ausência de seus dentes… esperou e perguntou pelo tempo que teria para embalar a sua dor, levantou as pernas, deu o impulso, subiu… e ventre corrompido esfriou na descida do balançador e ela sentiu-se de novo ela, toda ela de novo, pessoa que é… coisa humana… com um pouco menos de dor, por um breve instante sentada, divertida num balanço que era um gesto de arte, carregando para lá e para cá a mulher no que agora muito mais era um gesto de amor, o amor balançado no galho da árvore, da árvore onde se balança a dor, brincado no balançador… e tudo termina e começa assim… com meio da praça… onde um artista pôs um balanço, em um balanço… que foi posto pelo artista no meio da praça…


