As entrevistadeiras em… Histórias sem fim com Aslan Cabral

por Ana Luisa Lima

É, pode ser de fato complicado assmiliar de pronto a performance de Aslan Cabral.

Estava tudo muito bem planejado [mas não poderia o êxtase ser calculado?]…   Ele disse que “o trabalho é muito pensado, e por várias cabeças. Tem muitos atravessamentos. É muita gente. A coisa é muito fracionada. Ai meu deus, é tanta coisa…! (…) Eu comecei a escrever sobre os processos de busca, comecei a conversar com as pessoas, pesquisar… deixei ali aquele arquivo aberto… e depois comecei a pensar como materializar isso como ação artística.”

Aí ele criou Search, performance que apresentou às cinco e pouca do dia de hoje. [Algumas caixas de papelão fechadas. O artista chega e, com uma faca, começa a rasgá-las. De dentro das caixas sai espuma (daquelas de enchimento de ursinho de pelúcia), e, no meio delas, vários sacos plásticos contendo livros de arte, jornais, revistas e outros objetos menos intelectualizados mas tão do cotidiano quanto]

A ação – uma busca pelo conteúdo das caixas – não se propõe a achar muita coisa. Quer mesmo é fazer ver o ato da procura e suas virtudes e frivolidades todas – as últimas especialmente levadas em conta no atual contexto de “verticalização” e virtualização dos processos de construção e difusão do conhecimento…   Aí ele, ao não fechar sentidos ou ordens para seu trabalho, quer desenvolver (para criticar) “uma preservação da ignorância”. Aslan quer fazer ver os problemas de “conservar a forma fácil de achar as respostas e as informações… Eu gosto de ver cada um ter um processo pessoal de busca para encarar aquilo como arte…”.

Por isso também sua performance é estruturada de modo a tentar se “afastar” dos modelos cênicos habitualmente utilizados na performance… “Como eu não vim vestido como “artista”, as pessoas nem mesmo sabem se sou eu ou não o artista… Queria que as pessoas não soubessem ao certo se o trabalho acabou ou não etc. Dessa vez, eu tava meio nervoso, e ainda cravei a faca, aí deu um fechamento mais triunfal, e isso marcou muito, mas eu nem queria que fosse assim…”.

E essa estrutura pouco catártica, aliada à clara conceitualização do trabalho, dá a impressão de certa “secura”… [seriam também secos os processos de busca?] Performance sem maiores espaços para o desvio da ação… Tudo muito bem pensado, será? Mas não é esse o papel do artista – pensar previamente na sua ação? E diz o artista que o bom é isso: não saber ao certo do que se trata aquilo que se vê. Não saber encaixar direito as ações nos parâmetros previamente existentes – tanto o é que falamos, no início deste breve depoimento, que Aslan escapa aos “habituais” modos de fazer performance…

Enfim. Alvinho questiona a facilidade de encontrar as informações. Critica os processos de criação de difusão de conhecimento. Por isso também seria preciso que não fosse muito fácil “deglutir” seu trabalho. É bom o engasgo que nos faz pensar. E também esse engasgo tem a ver com as pretensões do artista: “eu quero tratar de verticalização de pensamento, de produção de conhecimento, do que for. Eu acho que é tudo muito global, muito igual. Muito higienizado.”

E o que seria o não higienizado da digestão? O vômito? (será que vomitaremos após nosso engasgo?)

Aslan: “eu não quero controlar as articulações [cognitivas] das pessoas… Se alguém ri enquanto eu estou fazendo um trabalho, tudo bem. Quem sou eu para querer controlar isso?” Liberdade, portanto, inclusive para digerir.

E fica a reflexão… “Nós elitizamos a experiência artística à seriedade… Como se não pudesse haver o desvio – como o riso… Talvez porque as pessoas achem que a lágrima é mais profunda que a risada… Mas é uma convenção. E a gente vai ficar só convencionando na arte contemporânea?”

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