Rapidinhas

por Tatuí

Lisette Lagnado

Certa vez, você declarou que acreditava que acreditava que uma das grandes “funções” de um crítico de arte seria a de contribuir com o desenvolvimento estético e poético de sua própria geração – aqueles artistas com os quais o crítico de fato convive e divide experiências cotidianas. A que geração você se sente filiada e de que modo você entende que pode ter contribuído com ela?

Eu me sinto filiada ao momento presente e portanto aos artistas que estão com gana para negar valores retrógrados, com gana de construir uma nova percepção estética. Mas, para isto, eu preciso sentir que este movimento do artista é interno, é essencial e verdadeiro. Não é pegar uma onda para surfar no discurso dominante. Eu me sinto solidária a criadores extemporâneos que eu tento trazer para o presente, tento dar visibilidade para aquilo que os outros não olham, que parece esquisito de início. É isto que mais me atrai. Minha vivência da arte não tem a distância que a crítica requer. Ela tem sido muito apaixonada, deixando minha biblioteca à disposição para quem quer saber mais, abrindo vinho e alimentando longas conversas na minha casa, que giram também em torno de questões éticas. Isto propicia uma escrita mais livre, menos engessada. No meu caso, não posso citar uma geração. Trabalho no meio artístico desde 1980. Já escrevi sobre artistas dos 70, dos 80, dos 90, do agora. Mas minhas relações são todas com indivíduos, um a um, não se fazem em “blocos”. Eu não sou de grupo nenhum.

Rodrigo Braga

Como você entende a presença da sexualidade em sua obra?

Penso que – sobretudo após o processo extremamente psicológico e autobiográfico vivenciado na série Fantasia de Compensação, em 2004 – o quanto mais me aprofundo em aspectos íntimos da minha relação com o externo, mais me aproximo de questões existencialistas em minha produção. A utilização de elementos naturais (carnes, terra, vegetais, água, etc.) evidenciam o ciclo da gênese: origem e fim, vida e morte, fertilidade enfim.

Sem dívida a sexualidade está muito presente na maior parte da minha produção mais recente, ora mais evidentemente, ora sutilmente. O busto nu, a pele exposta ao contato, o mel e a água que provocam os sentidos, a flor como órgão reprodutor, a terra molhada e fértil, o entrelaçar de corpos com um bode, o cão viril, o desfalecimento, o gozo sempre em potencial.

Bianca Tomaselli

Você enxerga (e o que seria) academicismo na arte contemporânea?

Sabemos do artista acadêmico, como aquele que se situa na mão oposta ao artista moderno, seguindo normas de desenho, pintura e escultura dadas nos tradicionais Liceus, Escolas e Academias de Arte. Hoje, associamos “Academia” à Universidade, porém sua produção não deve mais ser confundida com o que falávamos acima. Primeiro, pois não nos faz mais sentido o embate entre acadêmicos e modernos. Segundo, porque qualquer Universidade qualificada oferece ferramentas importantes para o processo poético do artista. O problema está na distância que o acadêmico pode vir a ter da prática artística, ao tratar dela. Mas, ainda que haja questões que dizem respeito apenas à academia e outras que se referem à prática artística, tanto melhor se ambas forem capazes de dialogar, entrecruzando-se. Neste atravessamento, uma possibilidade de olhar para o termo, sem indisposições, nos é dada.

Cristiana Tejo

Quais os seus pintores preferidos?

Gostaria de falar de meu percurso afetivo de descoberta da arte e não necessariamente de julgamentos estéticos com relação à pintura. Gosto de olhar para trás e ver os pintores que me  seduziram e me trouxeram para o universo da arte e para o entendimento que tenho deste campo. Acho que Turner tem um papel muito importante em minha formação. Seus mares e céus ameaçadores ainda me tocam quando os vejo pessoalmente. Rembrandt me emocionou de primeira e ainda continua sendo um de meus favoritos. Rothko e Matisse foram dois artistas que me marcaram muito no inicio de meus estudos de história da arte. Atrai-me muitíssimo suas experimentações cromáticas e pictóricas. Admiro ainda Malevich e Yves Klein pelos questionamentos e novos dimensionamentos dados à pintura do século XX e Vicente do Rego Monteiro pela densidade e envergadura de sua proposta artística. Muitos outros nomes de minhas predileções afetivas ficaram de fora de serem publicizados desta vez. Mantém-se, entretanto, vivamente guardados em mim.

Deixe um comentário





Enviar por email Favoritos Imprimir Orkut Twitter Facebook | Mais