Editorial 00

por Tatuí

Uma Tatuí degenerada. De numeração zerada. Desalinhada (para fundar outro gênero de si mesma). Ela retorna – e retornamos – ao método imersivo das edições 1 e 3. Imersão e imaginação: a Tatuí ficcionaliza sua ordem prevista (e previsível) para tomar como fundante a forma de construção editorial deste número, experiência de degeneração (intelectual e autoral) que a constitui como única. Paradoxalmente coletiva, é, contudo, uma Tatuí – por hora – solitária. E prenhe como o zero (que a circunscreve).

Por uma semana, nos dias que se seguiram ao último carnaval, estivemos juntos no Branco do Olho e seus arredores, pensando e morando. Conversando, escrevendo. No chão, no mar e no telhado. Juntos e também sozinhos, pois inclusive o novo gênero logo se regenera. Por entre as horas de memórias, discussões, sonos e ócios, medimos o tempo na intenção de editar integralmente uma Tatuí, demanda a que nos autoconvocamos como pretexto para a aproximação – e o estranhamento. Conservada a lógica/economia de produção que possibilitava aquele encontro, fez-se necessário – porque desejado – encontrar uma forma de criação/trabalho que dela, entretanto, se distinguisse, constituindo respiros inventivos que não pudessem se dar noutra parte senão ali, conosco. Era preciso explorar os nós que ali se inauguravam. Assim, por entre toques carnais e datilográficos, masturbatórios e orgiásticos, surgiram os textos – tantas vezes suspiros ou muxoxos – que fazem esta Tatuí.

Os editores que, juntos, assinam parte das páginas, são a saliva entre nós partilhada através de manhãs e madrugadas: quando os sentimentos se familiarizaram e vislumbraram nos outros cumplicidade, a vontade de falar em amálgama se manifestou. Tocadas por vários, as palavras foram ligadas sem a pretensão de, contudo, mascarar as inevitáveis distensões que os ligamentos provocaram. A autoria que não se individualiza não quer encobrir as particularidades das distintas vozes (e dentes) que, vale ressaltar, a compõem. Talvez a (nossa?) geração de coletivos se queira partilhar com maior flexibilidade que aquela dos grupos. Por isso há momentos em que os editores precisaram se colocar e se designar eu, inclusive para questionar a intenção – e os métodos – de falar por si como se pelos outros. Atravessando argumentos e opções de linguagem, aqui persistem e atualizam-se os insistentes duelos identitários de sempre, agravados pelo quase frustrado desejo de construirmos uma identidade social coletiva ao reconhecermo-nos geracionalmente. Para além daqui, existirá o nós que cá está? Haverá outro alguém que ousará dizer-se nós?

Às questões não respondidas dos dias vivenciados foi somado o silêncio do zero, que reposicionou o lugar desta Tatuí no espaço-tempo. A despeito do encontro de tantas letras e riscos, é dos vazios que aqui prioritariamente tratamos. Mesmo nas histórias e provocações instauradas nos textos, a dispersão da diarreia herdada e a nem sempre bem-sucedida pontaria de nossas ideias rondam as páginas que passaram, e se evidenciam em nossa incapacidade de perpetrar uma síntese mais sólida de nós mesmos.  De fato, os labirintos que tanto (en)cerram os territórios certamente se complexificaram com esta experiência que nos tirou de rota.

Mas igualmente verdade, nossas salivas e toques promoveram sensações de desterritorialização que colocaram de lado os dilemas labirínticos – “direita ou esquerda?” e outros – em prol do gozo que encontramos na possibilidade de nos perdemos coletivamente: deriva. Perder e encontrar, retroativa e incessantemente. Porque a degeneração é também um processo de invenção de gêneros e mundos. E, generar, nossa mais íntima e controversa ambição. A sensação de ter que recomeçar não cessa. E aqui, fecundados uns pelos outros, continuamos, do zero.

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