Reflexões de uma artista-turista na Palestina

por Isabela Prado

 

A experiência de temporariamente habitar uma nova cidade tem sido para mim recorrente nos últimos anos, quando da participação em residências artísticas no exterior1. Estas situações sempre despertam a percepção de um elemento que se faz muito forte em minha produção como artista: a constatação de ocupar um lugar de artista-turista, em que meu olhar sobre a cidade incorpora a ingenuidade de quem não a conhece.

cidade

Fui convidada para uma residência em Birzeit, na Cisjordânia, em setembro de 2009. Este convite mais uma vez acionou a percepção de minhas experiências anteriores como uma estrangeira em um lugar desconhecido. No entanto, esta viagem tinha características muito específicas e marcantes, que a diferenciavam do perfil mais “suave”, quase romântico, de outras viagens a residências. A delicada situação política e social da Palestina, juntamente com todas as restrições em meu processo de entrada e circulação no país, geravam uma situação de alerta, uma expectativa em relação à viagem, que se refletia também nos comentários das pessoas em reação à notícia: “mas não é perigoso?”, “não tinha um outro lugar pra você ir?”, “como assim, Palestina?!”.

Frente a toda essa situação – aos possíveis riscos e a certo grau de incerteza quanto à possibilidade ou não de entrar no território palestino, de ser capaz ou não de retornar de lá, à vulnerabilidade a situações fora de meu controle – o mero fato de estar na Palestina, de viver lá por um período, e de ser capaz de retornar, torna-se para mim uma performance. Decidi, a partir disso, manter um diário aberto. Convidei um grupo de pessoas para acompanhar minha trajetória e minhas percepções, abrindo a possibilidade de estabelecer um relato mais aberto para pessoas da minha cultura e de manter um canal de comunicação com um grupo que fosse neutro em relação às minhas experiências. Tratava-se também de uma estratégia de segurança, de acompanhamento, como se eu estivesse sendo monitorada à distância.

com predios

Chego então à Palestina inevitavelmente ocupando o lugar de artista-turista – pelo deslocamento geográfico, pelo desconhecimento do local, pelas diferenças de cultura e de idioma – e me proponho uma aproximação com a região a partir desse ponto de vista. Permito, assim, que meu olhar e minha percepção sejam construídos com os elementos, as imagens e as situações que de imediato me impactam mais fortemente.

A intensidade da experiência acabou tornando inevitável o desejo de executar outros projetos, além do diário e da performance pensados inicialmente. E, como se poderia esperar, aquelas impressões iniciais foram influência decisiva nos demais trabalhos que eu viria a planejar ou executar durante o período da residência.

Após alvista telhadogum tempo, percebi que minha atenção se voltava sempre para a complexa relação que se estabelecia entre duas culturas, entre dois povos em permanente conflito – muito embora eu estivesse claramente vivendo em apenas um dos lados da estória. E, nesse lado, é como se a vida estivesse constantemente em suspensão, em transição. Cada dia era vivido com intensidade, como se o dia seguinte nunca pudesse ser previsto ou planejado com muita certeza. Ao mesmo tempo, e talvez como consequência disso, eu percebia uma sensação de grande desapego e de tolerância a situações adversas.

Todos esses aspectos se refletiam nas relações que se estabeleciam entre os participantes da residência e, em última instância, nos trabalhos produzidos. A residência voltou-se muito à experiência de viver o cotidiano da Palestina e minha percepção é de que a produção dos trabalhos permeou essas questões. A intensidade da experiência gerou trabalhos fortes e com muito envolvimento em relação à situação local.

Com o passar do tempo, percebi que pouco a pouco eu passava de artista-turista a artista-política. A pesquisa desenvolvida durante a residência ficou fortemente associada a minhas percepções quanto ao ambiente a meu redor e quanto a alguns aspectos centrais do cotidiano dos palestinos. Em meu caderno de anotações, apareciam focos de interesse e possibilidades de pesquisa, quase como uma lista de desejos, e sempre existia alguma conotação política ou social. Desejos de alterar o mapa da região, de criar passaportes palestinos, de repensar a função do muro e dos checkpoints2, de gerar novas formas de distribuição de água, de trocar os fuzis M-16 do exército israelense por espingardas de bolhas de sabão, de coletar uma nova série de resoluções – como as da ONU – propostas por cidadãos palestinos. Eu, “a última das românticas”…

Dois trabalhos foram enfim executados a partir dessa perspectiva de artista-política, abordando duas questões cruciais na região: primeiro, a presença do muro e dos checkpoints e as limitações à liberdade de movimento no território; segundo, as restrições no abastecimento de água na Palestina, que se reflete na presença maciça de caixas d’água, em grande número, nos telhados.

O primeiro desses trabalhos – um vídeo intitulado Vanishing Point (Ponto de Fuga) – captura o fluxo de veículos e pedestres no checkpoint de Qalandia, perto de Ramallah. Filmado do alto de um prédio próximo ao local, com um enquadramento fixo, o vídeo mostra o movimento em Qalandia durante um dia inteiro. O título traz um jogo de palavras, pois Vanishing Point também significa “ponto de desaparecimento” e o trabalho propõe uma reflexão sobre desaparecimento da cultura, perda de identidade e restrições à liberdade.

As caixas d’água – massivamente presentes nos telhados da Palestina e tão visualmente marcantes na paisagem – são o elemento central em Water Skyline, uma instalação composta por uma série de fotografias em preto e branco. Com fotografias coladas diretamente sobre as paredes, uma ao lado da outra, formando uma linha do horizonte imaginária, a instalação cria uma nova paisagem e ressalta as restrições do abastecimento de água na região3.

Continuo andando com minha lista de desejos e ainda me sinto impregnada pela luminosidade, pela poeira e pelo som das mesquitas na Palestina. Estar lá foi uma experiência importante e intensa, que influenciou fortemente os trabalhos produzidos durante a residência. Em última instância, minha produção refletiu a intensidade das relações, o envolvimento com a situação local e o desejo de mudança.

1 A primeira experiência nesse sentido foi em Berlim, em 2006, quando apresentei uma intervenção urbana chamada Estrangeiro, e se repetiu em residências em Shatana, Jordânia (2007) e em Córdoba, Argentina (2008).

2 Checkpoints são postos de controle presentes no território da Palestina e controlados pelo exército israelense, cuja função é controlar e restringir a circulação de palestinos em seu próprio território, bem como sua entrada e saída em território israelense.

3 Na Cisjordânia, o abastecimento de água é controlado por Israel, que só libera seu fornecimento durante alguns dias da semana. Daí a necessidade de inúmeras caixas d’água em cada edifício, para estocagem.

obra

Trechos do diário de Isabela Prado

Diário – dia 1

Ao longo da viagem de ônibus, no caminho de Jerusalém para a Palestina, nos acompanhava no lado direito, um muro alto de concreto, com arame farpado no alto. Uma cena impressionante e triste. Difícil explicar a sensação… me sentia dentro de um filme, o que de certa forma dava a sensação de ser “carta branca” e que nada aconteceria comigo, pois não pertencia, não estava “jogando” de verdade. A viagem ficava mais lenta por causa de um engarrafamento e percebi que isto acontecia por causa da proximidade do check-point. Ficamos muito tempo parados nesta região, mas como a coordenação já havia nos comunicado, eles não param estes ônibus da cidade para vistoria, principalmente para sair de Jerusalém, o problema maior seria o retorno, a tentássemos entrar de volta em Jerusalém. Era muito impressionante o volume de pessoas e veículos naquela região, e todos aqueles homens armados, muito armados e o clima de tensão entre todos. Continuava a sensação de fazer parte de um filme, e esta minha frieza me incomodava, percebia que havia uma distancia enorme entre o que eu sei e o que realmente acontece ali.

Diário – dia 2

Me esqueci de mencionar ontem no diário, do momento em que fomos a um mercadinho aqui perto. Um mercadinho pequeno (com as melhores castanhas que já comi na minha vida!!!), estas mercearias de bairro, que vendem de tudo um pouco, como os que temos ai’ no Brasil. Fui ate’ lá com algumas pessoas do grupo, e um dos árabes que me acompanhava veio me explicando enquanto ele selecionava os produtos para comprar para a residência: “você esta vendo isto aqui?” E ele apontava para um vidro de detergente: “isto e’ produto israelense, não compro não. So’ compro produtos árabes ou ate’ mesmo de outros países, mas israelenses nunca… so’ se não tiver jeito (pois eles sempre tem muito mais variedade e muitas vezes a qualidade e’ bem melhor). Eles me vendem isso que custa US$1, dai’ ele compra uma bala e atira nos árabes. Não compro não!” Dizia ele. Eu comecei a escolher alguns produtos (sabonete, castanhas, biscoito) ele me mostrava as alternativas árabes. Quando escolhi o biscoito, era israelense. Ele foi comigo ate’ a região para ver se encontrávamos um similar produzido aqui… não encontramos, ele ficou frustrado…encontramos um similar produzido na Turquia, e eu disse que para mim estava ótimo assim. Mas ele insistiu e me disse, para levar o israelense mesmo. O gosto seria bem melhor e que era importante eu conhecer de tudo. Assim foi! Castanhas e sabonete, produtos árabes, biscoito waffer, produto israelense.

(…)

Durante toda minha caminhada, e já desde ontem no carro, me chamou muito a atenção uns barris pretos enormes nos topos das casas e prédios. Algumas construções tem vários, um ao lado do outro, fazendo um contraste enorme com o céu azul ao fundo. Tenho tirado fotografias desta cena, como se eu pudesse construir um “Sky line” a partir destas imagens. Hoje perguntei para um dos palestinos do grupo durante nossa caminhada, o que eram estes barris. Ele me explicou que são reservatórios de água, já que Israel controla a entrada de água na cidade, que se da’ em dois dias da semana apenas. Pensei em começar a montar o meu “water sky line”.]

Diario – dia 4

Salama me contou que Mirna tem uma reunião em Jerusalém amanhã e que sai por volta do meio-dia, passando por Qalandia, o check-point próximo mais movimentado (o mesmo que eu passei de ônibus no meu trajeto para Ramalah) e que eu poderia ir com ela, e se fosse o caso ele iria para me fazer companhia também. Acho que e’ essencial cruzar esta fronteira a pe’, como fazem os palestinos, alguns todos os dias para estudar ou trabalhar. Dizem que pode demorar 2 horas ou mais na fila para atravessar. Rafat me disse que não conhece Israel, pois não tem permissão para atravessar, e Bashar que entrou na sala neste momento disse que nasceu em Jerusalém, mas nunca mais pode voltar la’ pois também não tem a permissão. Bashar esta’ animado com a possibilidade conseguir um permit para visitar Jerusalém, já que recentemente foi convidado para participar da “nuit blanche” na Franca e com isso deve receber um documento da embaixada francesa pedindo liberação para ele atravessar a fronteira (palavra erradissima, pois Qalandia não fica na fronteira. Os palestinos que atravessam este check-point estão indo de Ramalah para oeste-Jerusalem, os dois locais estão dentro de território palestino).

Diario – dia 5

Um grupo grande continuou dançando, eu vim escrever meu diário, agora a fogueira já se apagou e a maioria já se recolheu. Amanha vou a Qalandia na parte da tarde, com Salama, e talvez Mirna e David. Estou muito interessada em filmar um pouco da dinâmica do lugar. Tenho pensado muito na presença física e psicológica dos check-points na vida dos palestinos. Tenho repensado também no que configura os “vanishing points”… O trabalho começa a caminhar.

Diario – dia 6

Ficamos um tempo nesta área do check-point, conversando com Salama e Mirna, e observando o local. Os dois comentavam de como aquela situação era muito diferente, mais tranqüila, por causa do horário. De acordo com eles, no inicio e final do dia, geralmente aquele mesmo lugar esta’ lotado de pessoas em fila aguardando para atravessar o muro e chegar do outro lado. Toda a situação e’ extremamente constrangedora, e certamente e’ pensada para intimidar os palestinos que atravessam qualquer check-point. Em frente a esta área com os bancos vermelhos, tem uma “parede” gradeada, que na verdade são corredores um ao lado do outro, fazendo um zig-zag de grades (parece op-art), que mais parece com aquelas passagens para gado em algumas fazendas no Brasil. Para atravessar para o outro lado, entra-se neste corredor, que e’ estreito, construído para caber uma pessoa atrás da outra.

(…)

Comentei como era difícil estar em um ambiente que respira estes conflitos o tempo todo, não da’ para ignorar. Ao mesmo tempo, e’ uma responsabilidade enorme “meter a colher” ai’. Pensar que eu tenho mais liberdade de circulação que a maioria que vive aqui. Que eu posso ir a Israel e outros cantos daqui, mas eles não. Eu iria experimentar passar por Qalandia esta tarde, e Rafat nem passa por la’.

Diario – dia 8

Seguimos de taxi-van ate’ Ramalah e la’ caminhamos ate’ o ponto onde nos encontraríamos com Raouf. Poucos minutos depois ele chegou e em seu carro começamos o trajeto ate’ Qalandia. Chegando perto da região, Raouf me explicou que pegaria um trajeto paralelo para podermos ver as possibilidades de “site”. Paramos o carro ao lado do “muro”, ‘a direita do checking-point. Não consigo explicar o cenário, e’ impressionante! (…) O muro tem uma extensão imensa e esta’ coberto de grafitti com mensagens de protesto. O desenho, ou recorte que este muro faz na paisagem e’ realmente marcante em todos os sentidos possíveis, pois sua presença física e’ tão grande e tão imponente que certamente, atinge os palestinos simbolicamente, afetivamente, alem da barreira tangível que esta’ ali presente. Do alto de uns montes de entulho conseguíamos ver um pouco mais através do muro, mas não conseguíamos ver o chão do outro lado… Podíamos avistar parte da construção do aeroporto que foi desativado ha’ alguns anos e certamente víamos as altas torres que deviam também nos observar.

Diário – dia 13

No final das contas, a conclusão que eu chego é que estamos dentro de um vespeiro, o que faz com que a maioria dos trabalhos acabe tocando em questões políticas muito sérias, e cujas consequências são muitas vezes imprevisíveis.

Diario – dia 14

Durante todo este processo pensava em varias das situações que vivi por aqui e a relação com o trabalho produzido, tanto meu como de alguns outros do grupo, bem como as varias anotações que surgiram a partir deste primeiro contato. A minha sensação e certamente de alguns outros do grupo, e’ a de ter tido apenas um flerte com toda a situação política, geográfica, social da Palestina. A impossibilidade de realização de alguns dos projetos e esta situação limite constante.

____Não tinha água para  eu tomar banho logo antes do inicio do open day.____

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