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	<title>Revista Tatuí &#187; Deyson Gilbert</title>
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		<title>Arte, política e a crítica como fetiche</title>
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		<pubDate>Sun, 15 Nov 2009 03:49:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Deyson Gilbert</dc:creator>
				<category><![CDATA[Tatuí 6]]></category>
		<category><![CDATA[fetiche]]></category>
		<category><![CDATA[marketing]]></category>
		<category><![CDATA[Sothebys]]></category>

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		<description><![CDATA[É patente hoje, no mundo das artes, o fenômeno de uma curiosa insurgência de ações, trabalhos e discursos dotados de alta pretensão crítica e/ou política. O fenômeno, contudo, não é exclusivo do campo específico das artes.
Haja vista, por exemplo, os recentes exemplos no mundo da moda de coleções supostamente iconoclastas: desfiles que tematizam pontos ditos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>É patente hoje, no mundo das artes, o fenômeno de uma curiosa insurgência de ações, trabalhos e discursos dotados de alta pretensão crítica e/ou política. O fenômeno, contudo, não é exclusivo do campo específico das artes.</p>
<p>Haja vista, por exemplo, os recentes exemplos no mundo da moda de coleções supostamente iconoclastas: desfiles que tematizam pontos ditos polêmicos como a anorexia ou a guerra do Iraque, e que colocariam em questão os próprios valores da moda. Operação semelhante também é visível nos meios de comunicação, como, por exemplo, a campanha realizada pela MTV brasileira em 2004, quando por diversas vezes a emissora retirou durante 15 minutos sua programação do ar. Durante esses 15 minutos, junto a um zumbido constante, exibia-se um letreiro que continha a seguinte frase: “desligue a TV e vá ler um livro”. Segundo o diretor-geral da emissora na época, esta teria sido a campanha mais antiTV já realizada, pois seria “a menos hipócrita”. O objetivo seria levar o jovem a ler mais e, consequentemente, melhorar sua escrita, forma de pensar e de construir opiniões: “Só assim poderá ser crítico, ser culto” <a href="../../../../../wp-admin/#sdfootnote1sym"><sup>1</sup></a>.</p>
<p>O mesmo espírito “crítico” também é observável na campanha publicitária “As coisas como são”, criada pela <em>Maccain Erickson</em> para a marca de refrigerantes <em>Sprite</em>. Dentre as inúmeras peças publicitárias criadas pelo escritório de publicidade, havia um <em>outdoor</em> no qual figuravam bolhas falsas sustentadas por uma série de fios deliberadamente visíveis na imagem, como se estivessem saindo da garrafa azul do refrigerante (versão <em>light</em>). Ao lado da garrafa lia-se o arremate <em>conceitual</em> e <em>brechtiniano</em> junto ao <em>slogan</em> da propaganda: “A garrafa é azul e as borbulhas são falsas para te dar mais sede./as coisas como são”. Não à toa, a propaganda seria classificada por uma empresa de consultoria de <em>marketing</em>, também envolvida no <em>projeto</em>, de “irreverente, ousada e transparente”<a href="../../../../../wp-admin/#sdfootnote2sym"><sup>2</sup></a>. Adjetivos os quais, também não apenas coincidentemente, figuraram diversas vezes na mídia quando do rebuliço causado pelo leilão na <em>Sothebys</em> das peças de Damien Hirst neste ano (2008)<a href="../../../../../wp-admin/#sdfootnote3sym"><sup>3</sup></a>.</p>
<p>Observa-se, portanto, que aquilo que poderia ser descrito como a emergência de um certo “espírito crítico” nas artes hoje, em realidade responde a um processo indefectível no qual todas as áreas da cultura e do capital se encontram inseridas, não mais na perspectiva da cooptação <em>a posteriori</em>, mas já <em>a priori, </em>como recepção festiva e lucrativa: da “moralização ecológica” das empresas e indústrias depois da “revelação <em>al goriana</em>” da catástrofe ambiental, às comemorações do “maio de 68” na Rede Globo; da proliferação do atendimento social burocratizado das ONG´s, à criação do Museu de Arte Contemporânea de Castilla e Leon<a href="../../../../../wp-admin/#sdfootnote4sym"><sup>4</sup></a>.</p>
<p>O que se observa é a gritante capacidade de um sistema econômico, político e cultural se afirmar mediante a <em>crítica</em> (distorcida, cínica, irônica, deslocada, parcial – não importa) de seus postulados anteriores. Cabe aqui a lembrança do diagnóstico de Adorno a respeito da redefinição da idéia de ideologia no mundo do pós-guerra, ou seja, no mundo onde reina a indústria cultural. Para o filósofo, as relações de poder se caracterizariam então menos pelo recalque típico – necessário ao funcionamento da ideologia enquanto “falsa consciência”, ou seja, enquanto instância de ocultamento das contradições existentes em um processo de legitimação da efetividade por um discurso dominante – do que, ao contrário, pela exposição e afirmação nua e crua dessa relação enquanto tal, ou seja, da ideologia enquanto movimento insuficiente de legitimação da realidade. “A ideologia”, escreve Adorno, “em sentido estrito se dá lá onde o que rege são as relações de poder não transparentes em si mesmas, mediadas e, nesse sentido, até atenuadas. Hoje, a sociedade, injustamente censurada por sua complexidade, transformou-se em algo demasiadamente transparente”.<a href="../../../../../wp-admin/#sdfootnote5sym"><sup>5</sup></a></p>
<p>Essa transparência permite que a crítica hoje a toda e qualquer ideologia se incorpore ao sistema de poder sem que sua presença, ou juízo, altere o engajamento prático dos sujeitos dentro deste. Pois, no final das contas, como esperar um efeito transformador da crítica – visto que em última instância esta sempre responde à necessidade de uma operação de desvelamento – frente a um objeto (agora já se pode falar de um <em>produto</em>) que já de início se expõe em pelo; numa espécie de internalização da crítica, a autoexposição de suas contradições?</p>
<p>Assimilada a ideologia pelos sujeitos sociais da troca (os indivíduos, produtores e consumidores) sem que haja uma crença efetiva em relação à sua legitimidade, a situação dela (a ideologia) ganha assim, hoje, a dimensão de algo próximo a um paradoxo. Pois, ao cumprir seu papel de mediação da consciência frente à realidade, justificando e legitimando esta realidade mediante critérios e valores normativos predeterminados – os conteúdos históricos e sociais da ideologia – ela termina por legitimar prescindindo de legitimidade. Por conseguinte, termina por validar aquela normatividade à revelia mesmo da consciência (por parte do sujeito social da troca) de sua falta de validade. “Daí eles [os sujeitos] poderem ter uma ‘crença desprovida de crença’ (<em>&#8230;</em>) na mera existência. Algo resultante de uma efetividade que <em>já traz em si mesma sua própria crítica”.</em><a href="../../../../../wp-admin/#sdfootnote6sym"><em><sup>6</sup></em></a></p>
<p>É nesse sentido que acreditamos ser preciso compreender os exemplos expostos acima e suas insistentes discursividades “críticas”. Pois, tanto na arte quanto em outras áreas, o que assistimos parece ser a agudização, ou prolongamento, daquilo que Adorno acusava meio século atrás; aquilo que alguns autores da teoria crítica de hoje (Vladimir Safatle, Slavoj Zizek, Jean-François Lyotard) se referem, no contexto de uma “falência da crítica”, como “o modo cínico de ser do capitalismo avançado”. É nesse contexto que aquilo que chamaríamos de crítica passa a surgir não mais como ação esclarecedora, mas, sim, como tautologia: ação que menos revela do que simplesmente repete – “diluição na diarréia”, diria Hélio Oiticica (para voltarmos a nosso ponto de partida no campo das artes plásticas).</p>
<p>Paradoxalmente inutilizada a crítica pela contraditória afirmação de sua plena potência, a sua “falência” se apresenta, na situação atual, talvez como o principal problema frente aos imperativos do capitalismo hoje. Ao menos no que se refere à ação política contra esses imperativos. Contradição não resolvida sobre a qual, incontornavelmente, devemos nos debruçar se quisermos pensar uma saída para a arte, desde já imersa nessa situação.</p>
<p><a href="../../../../../wp-admin/#sdfootnote1anc">1</a> “MTV convence 14% da platéia a desligar a tv”, <em>O Estado de São Paulo</em>, São Paulo, 15 de novembro de 2004.</p>
<p><a href="../../../../../wp-admin/#sdfootnote2anc">2</a> In http://www.plusmedia.com.br/default.aspx?code=369</p>
<p><a href="../../../../../wp-admin/#sdfootnote3anc">3</a> WULLSCHLAGER, Jackie. Damien Hirst muda relação arte-dinheiro. <em>Folha de São Paulo</em>, São Paulo, 14 de setembro de 2008.</p>
<p><a href="../../../../../wp-admin/#sdfootnote4anc">4</a> CYPRIANO, Fabio. <em>Folha de São Paulo</em>, São Paulo, 11 de abril de 2005, Caderno Ilustrada.</p>
<p><a href="../../../../../wp-admin/#sdfootnote5anc">5</a> ADORNO, Theodor. Sociologische Schriften I, Frankfurt, Suhrkamp, 1980. In: SAFATLE, Vladimir. <em>Cinismo e Falência da Crítica.</em> São Paulo: Boitempo, 2008. p.93.</p>
<p><a href="../../../../../wp-admin/#sdfootnote6anc">6</a> SAFATLE, Vladimir. <em>Cinismo e Falência da Crítica.</em> São Paulo: Boitempo, 2008. p.97.</p>
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